sábado, 28 de fevereiro de 2026

O sol

 

O sol nas paredes caiadas e sem cor,

O anzol e as redes atiradas ao amor,

O lençol, as sedes desvairadas de calor.


O sol refletido no rio da mente, 

perdido numa ideia desvanecida.

Eu sou vazio ao relente, 

estendido na areia levemente aquecida.


As mãos fechadas aguentam a dor

os grãos de areia nas portadas fechadas à lucidez.

O meu coração bate nas revoadas matutinas,

na ideia de novas escadas, que subo de cada vez.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Lançar as redes

Acordar ao sol, lançar as redes,

Mas nem um peixe ou nada para comer.

Abro os braços ao céu e falo das minhas sedes

de um mundo que não consigo compreender.


Na certeza, da leveza, de que não preciso desse peixe.

Na verdade, ele está algures arrumado em mim!

Mas a vida fez com que eu esquecesse e não deixe

que o meu tesouro seja uma das flores do jardim.


Mais um dia e um trilho para percorrer.

Desta vez vou ser capaz por Ti.

Não fui criado para morrer,

mas antes para pintar os dias da cor que me traz aqui.


Porque não consigo reencontrar a criança que tive de ser?

Quero abraçá-la e dar a esperança de que está tudo bem.

Não tens de fugir, chorar, sangrar e continuar a correr.

Podes parar e adormecer no aconchego da tua Mãe.


sábado, 19 de outubro de 2024

Vicky

Eu adormeci e você estava lá a jantar.

Ao nosso lado, como antes.

Sabia que não o podia tocar,

mas os sonhos são como os gigantes:

não existem mas existe,

e você veio para ficar.

Não quis tocar na minha dor que persiste,

mas foi você que me pediu para o abraçar.


Abraceio-o como pediu e como tanto preciso

e afinal sentio-o como sempre.

O seu cheiro, a sua pele, o seu sorriso.

Chorei com a força do ventre.


Acordei e já não estava ali.

Limpei as lágrimas sentado no chão.

Quis e quero acreditar que esteve e que senti,

não com os olhos, mas ainda maior com o coração.


As horas, os dias e as estações passarão.

Fiquei naquele abraço sem fim.

Segurarei forte a sua com a minha mão

Para que para Sempre permaneça em mim.

sábado, 23 de dezembro de 2023

Meu Deus,
que terra tão bonita e imensa.
O que estamos a fazer 
para que a tua obra permaneça?

O mar reflete os ceus,
a floresta verde e densa,
a luz nas colinas ao entardecer,
a chuva nas flores para que crescam.


domingo, 15 de outubro de 2023

A CURA

Acordar os sentidos
Para uma viagem outra vez
Descalcei as meias
Fiquei de tronco nu

Pisei os os vidros
Sangrei os dedos dos pés 
As ondas da lua cheia
Vibram o meu ser cru

A missão é clara
E não vou voltar atrás 
Até resgatar aquele menino
Às voltas sozinho na floresta

Nada me impede ou para
Na procura da luz e da paz
Na força da oração e do sino
Que abre o caminho que me resta

É pela vida e pelo amor
Que sigo firme na lama
O escuro que me repulsa e chama
Para não viver mais na dor

A dor de andar perdidos às voltas sem fim
desconhecendo as portas da vida.
O corpo turva na dor mas a cabeça erguida
vai nas pautas das notas soltas em mim.

Quando o encontrei, chorei.
Não o reconheci mas ele respondeu pelo nome.
Abracei. Chorei. Não sei.
Sem certezas, mas disse que acabou a sede e a fome.

Agora que o tinha nos meus braços e coração
Estava em mim a força de o resgatar da guerra.
Sabia que se juntasse os pedaços no chão 
Que o poderia levantar de volta à terra.

sábado, 10 de junho de 2023

Meu amor

Após a guerra, depois do fogo.
Com o fim da tempestade.
No final do choro e da amargura.
Para lá das portas que se fecharam.

Seremos sempre e logo,
Duas almas em busca da verdade,
Como velas sentinelas na noite escura.
E um sopro nas feridas que saram.

Não há tiro de espingarda
Golpe de espada ou pedra atirada
Que mate um amor de verdade.

Porque ainda que a pele arda
E os pés sangrem nas pedras da estrada
A matéria do amor é a liberdade!

Árvore e Mar

Com as raízes no chão
mas os troncos dirigidos ao céu.
Às árvores são expressão 
de uma vida que se ergue.

Tendo na terra o seu limite,
é na imensidão e força que se define.
O mar é um verbo que transgride 
onde tudo nasce e nada se perde.

Pudesse eu ser árvore e mar
Soubesse eu ser tudo isto
E talvez a minha alma visse o dia.

Porque de tanto sonhar e caminhar
Sou de uma terra que nunca avisto
Numa eterna sede que nuca se sacia.