No segundo esquerdo, numa casa que já na altura era velha, na Avenida Mousinho Albuquerque em Idanha-a-Nova, Maria Alexandra dá à luz o seu primeiro e único filho, já que morrerá de dor neste parto que durará mais de cinco horas. Nessa mesma tarde, já pressentindo que estaria para breve o momento da chegada do seu tão esperado filho, fez uma caminhada pelos terrenos incertos junto à barragem, até Idanha-a-Velha. Foram sete quilómetros, que separam as duas idanhas, de alguma aflição, dada a tarde estival de Maio e um calor que mal se podia suportar á sombra. Mas Maria havia prometido a Deus que se o seu marido, já doente, morresse antes do nascimento do filho, que faria esta caminhada como forma de agradecimento. Toda a sua vida está emaranhada num místico seguimento de presságio e morte. O seu bisavô batia na sua bisavó (também ela Maria, mas Maria Isabel), e, quando esta engravidou este não acalmou, contra tudo o que se esperava. Mas, de tanto que a sua bisavó rezou para que a vida do seu marido fosse mais curta que a sua, assim aconteceu e ele morreu onze dias antes do nascimento da sua avó, vítima de um cancro na faringe. Uma história parecida aconteceu depois com a sua avó, que era também Maria (Maria Agustina, julgo eu). Do que se falava aqui em Castelo Branco, esta família sofria de falta de governo. Após uma história de um casamento forçado e de seguidas pancadarias em plena rua de Idanha-a-Nova, Maria Alexandra rezou para que o seu marido morresse, e este morreu fez no dia do parto 38 dias. Maria Alexandra não tinha ido antes cumprir a sua promessa de caminho até Idanha-a-Velha, por causa dos árduos preparativos para as festas das Cruzes, que se realizaram no domingo 3 de Maio (e quando este dia calha mesmo a um Domingo, a festa parece ainda maior). Da vida desta família destacava-se esta característica, quase destino, de que toda a descendência directa era do sexo feminino e que todas se tornavam vítimas nas mãos dos seus maridos. De outros pormenores, quase nada se sabia. Vimo-las sempre acompanhadas por outras anónimas senhoras das aldeias vizinhas, e não falavam muito. Cabisbaixas e tímidas, até no café ou na mercearia, as suas amigas falavam por elas. Como irregularidade a este caminho tão certo de senhoras, nasceu um rapaz. Que terminou este sofrimento de gerações, com um dom especial para as artes e os astros. Depois de quase cinco horas de angústia e alegria misturadas da sua mãe, nasceu Rodrigo Alexandre, com muito cabelo escuro e uns olhos igualmente escuros, franzino e mal se ouviu chorar quando nasceu e a parteira suspeitou que não conseguisse respirar. Após o nascimento e sem família próxima que se conhecesse, o médico de Castelo Branco que auscultou o bebé e registou o óbito da mãe, conseguiu o contacto de um primo afastado do pai, que estava na cidade para o funeral deste último. Era um senhor bem visto, juiz em Caldas da Rainha, o doutor Vicente Narciso. Possuía algumas terras perto de Peniche e morava num palacete em Óbidos. Este rejeitou qualquer tipo de responsabilidade presente ou futura com o recém-nascido mas disponibilizou-se para procurar quem tomasse conta da criança, mas só e apenas "se mais ninguém puder". Assim, no final do mês de Maio o Rodrigo chegou pelas mãos de uma enfermeira que se responsabilizara por ele nas primeiras semanas de vida, à casa de uma amiga do Dr. Vicente Narciso, que morava em Salir de Matos. A amiga era a Guilhermina Bastos, que ficara viúva aos 28 anos e que deixara de trabalhar como professora ainda no início de carreira. A Guilhermina tinha também muito dinheiro e bens, herdados do marido, e ficava em casa a tomar conta do seu belo jardim saindo apenas para a missa das 8h nas Caldas da Rainha e para uma ou outra reunião paroquial. Mal soube da história do Rodrigo, através de um padre amigo comum entre esta e o Dr. Vicente, assumiu logo para consigo que se mais ninguém se disponibilizar, ela aceitará. Tratou logo de arranjar uma ama de leite e os mais belos preparativos para o quarto do Rodrigo. Nunca o quis ver e nunca tinha visto quando ele chegou, e achava melhor assim. Assumiu amar o recém-nascido como um presente de Deus, viesse ele de onde viesse e tivesse ele que aspecto tivesse. Nas noites que antecederam 28 de Maio, data da chegada do Rodrigo, mal conseguiu dormir. Teve vários sonhos, todos eles muito expressivos mas abstractos. Sonhava com pinturas de Van Gogh, com estrelas feitas de pastel num fundo azul escuro, e com anjos que saíam das pinturas e lhe pediam e insistiam que pintasse nos quadros que traziam nas mão estrelas iguais às de Van Gogh – Não fui eu quem pintou este quadro – lembra-se a Guilhermina de tentar explicar – Mas tentarei dar o meu melhor. Dêem-me tempo e coragem! - E depois os anjos desapreciam e a Guilhermina acordava.
Na manhã do dia 28 de Maio, estava a chuviscar, quando a Guilhermina saiu às 9h30 da missa em passos acelerados, mesmo estando com a antecedência necessária, pois pretendia ir para o carro meditar sozinha e agradecer ao divino, o santo mistério que a esperava. A hora combinada por telefone com a enfermeira era às 11h, junto ao tribunal, que ficava no mesmo largo que a igreja. A partir de lá, Guilhermina seguiria no seu carro até à sua casa, seguida pela enfermeira, o Rodrigo e uma auxiliar do hospital de Castelo Branco, que a acompanhara. Em dez minutos que pareceram quarenta, Guilhermina faz sinal com as mãos para que a enfermeira estacionasse o carro fora dos portões, pois andavam a tratar do jardim. Ainda não tinha visto o Rodrigo.
- Sempre foi a minha vontade que o Vicente contactasse mais vezes com o Rodrigo, que é do seu sangue. Se não o vê mais vezes é porque assim não o deseja. Ele faz no sábado quatro anos. Vou reunir família e alguns amigos mais próximos, assim como o Padre Jerónimo. Venha lá ter as 15h. - E a Guilhermina despediu-se do Dr. Vicente com alguma pressa, na Rua das Montras das Caldas da Rainha, a caminho da Praça da Fruta, onde esperava encontrar fruta necessária para o batido de fruta que o Rodrigo tanto gostava.
O Rodrigo está crescido e já não é o rapaz franzino e de tom de pele triste que chegara a casa de Guilhermina. É agora um rapaz igual a todos os outros, mas com uma bonita pele marcada pelo sol das longas tardes na praia do Bom Sucesso a brincar com uma amiga, sobrinha da Guilhermina, a Ana Maria, que é a companhia favorita das brincadeiras do Rodrigo. O Dr. Vicente tem uma tarde por mês com o Rodrigo, em que passeiam e vão ao cinema ou ao parque. O Rodrigo trata-o por tio, mas o Vicente é sempre apresentado como amigo e nunca como família. Respeitando o desejo deste.
- A Ana Maria disse-me hoje que o Rodrigo estava a pintar um quadro para lhe oferecer com duas pedras desenhadas em cima de duas flores. Que tipo de inspiração tem o teu filho? - Perguntou Francisca, a irmã mais nova de Guilhermina.
- Não sei. Mas quando fez nove anos ofereci-lhe um conjunto de canetas de feltro e lápis de cor para que pudesse pintar os seus sonhos. Há muito que ele tem expressado o seu interesse por poder pintar.
- Os seus sonhos? - Interrompeu Francisca. Guilhermina olhou-a por instantes, pensando se teria dito algo de estranho, dada a cara de espanto da sua irmã.
- Sim – disse com muita segurança – ele conta-me sonhos fenomenais que tem e achei que davam pinturas fantásticas.
- Que tipo de sonhos Gui? - Insistiu Francisca.
- Sonha com árvores que tocam nuvens. Com rios que sobem montanhas. Com pássaros feridos, ou só com uma asa, que voam mesmo assim. - No momento em que terminara de falar, lembrou-se que a professora do Rodrigo tinha pedido que a Guilhermina passasse por sua casa antes da hora de jantar, pois gostaria muito de falar com ela.
- Não sei o que lhe motiva tais pinturas. Em casa o Rodrigo nunca pintou pessoas, muito menos mortas. Mas não passa de uma criança e é precipitado falarmos de problemas psicológicos por um desenho único – explicou a Guilhermina à professora Teresa, que acompanhava o Rodrigo desde a primeira classe.
- Insisto que a Gui deve lavá-lo a uma consulta de psicologia. Só por rotina. - Incentivou a professora.
-Verei mais tarde o que fazer. Obrigado por me informar. - E saiu calmamente da casa da professora. Pelo caminho para casa foi a pensar nestes desenhos e sonhos que todos a alertavam que o Rodrigo pintava ou descrevia. Sempre de temas diferentes. Dependendo da pessoa para quem desenhava.
- Está lá? Vicente? Fala a Guilhermina.
- Como estás? - respondeu amavelmente Vicente, que reconheceria a sua vós doce e cuidada, mesmo que Guilhermina não tivesse dito o seu nome.
- Obrigada. Ligo-te para saber se tens notado algum tipo de comportamento estranho no Rodrigo quando estás com ele?
- Não. Neste último Domingo pareceu-me muito bem. Mas também só o vejo uma vez por mês ou em alturas festivas, não o acompanho assim tanto. Porque perguntas?
- Porque tenho ouvido comentários aos desenhos dramáticos do meu filho. Comentários estranhos. Mas – dizia Guilhermina quando Vicente a interrompeu.
- Desenhos? Ele ofereceu-me um desenho com pedras e umas nuvens cinzentas que achei algo dramático, mas que considero uma forma de expressão como tantas outras. Quem mais comentou os desenhos do Rodrigo?
- A professora e a minha irmã Francisca. Bem, vou estar mais atenta mas não vou alarmar o Rodrigo. - Desabafou Guilhermina, que sempre confiara no seu instinto e não acreditava em interpretações rígidas e prematuras.
Quando chegou a casa, o Rodrigo estava a ver televisão e entretido ao mesmo tempo a afiar os seus lápis de cor. Guilhermina beijou-lhe a testa e sentou-se ao seu lado para descansar um bocado antes de irem jantar.
- Mãe. Ontem voltei a sonhar com o tio Vicente. E aparecem sempre pedras cinzentas e pesadas e nuvens igualmente cinzentas e pesadas.
- Muito bem. E de que mais te lembras? - perguntou muito atenciosa ao filho enquanto fechava os olhos deitada sobre o comprido no sofá.
- De mais nada. Só que parecia que ia chover mas que as nuvens estavam quase a rebentar com o peso da água. Depois sonhei com a Ana Maria e voltei a ver flores lindas como aquelas que a mãe plantou à entrada de casa, mas com pedras por cima.
- E ainda no sonho do tio Vicente. Onde estava o tio Vicente? - Insistiu Guilhermina.
- Esteve lá sempre. As pedras e as nuvens são o tio – explicou enquanto se parecia entusiasmar por poder partilhar os seus sonhos e foi-se deitar junto à mãe – o tio está nas pedras e nas nuvens. Mas não está escondido. Está como se ele fosse a pedra e a nuvem – Guilhermina escutava com muita atenção, agora já de olhos abertos, enquanto passava os seus dedos no cabelo do Rodrigo.
- E o que são as pedras e as nuvens? Porque é que o tio Vicente não é uma onda da praia ou um chapéu? - insistiu mais uma vez, procurando perceber que tipo e que profundidade de abstracção o Rodrigo experenciava nestes sonhos.
- Porque é uma pedra, tipo rocha cinzenta. E uma nuvem. Porque depois de ter estes sonhos, quando estou com o tio sinto que os sonhos que tenho aparecem sobre o tio. O tio parece cinzento às vezes. Principalmente quando está com pressa.
- E com a mãe? O que sonhas?
- Sonho o céu. Sonho muitas estrelas e asas. E sonho uma árvore com um só tronco. Um tronco que a árvore protege e por isso o fez crescer tão alto para estar mais protegido, para apanhar mais sol e crescer mais. - Guilhermina teve num instante a imagem dos sonhos que tinha tido há muitos anos, antes do Rodrigo vir. E teve também algumas impressões sobre o que este sonho parecia representar. Mas não quis, insistiu para consigo mesma, perturbar ou alarmá-lo e sorriu e voltou a fechar os olhos.
Não prestando mais do que a atenção carinhosa e despromovida de segundas intenções, a Guilhermina deixou que o Rodrigo sonhasse com o que quer que fosse e quisesse. Apercebeu-se de que os seus sonhos representavam o estilo de vida de cada pessoa que o seu filho depois pintava. E mesmo os quadros mais escuros nas pessoas que mais luz pareciam ter, mais tarde ou mais cedo revelavam-se fiéis retratos da alma. O Dr. Vicente tinha mesmo muita pressão na sua vida e dias muito cinzentos. Quando o Rodrigo começou a pintar rosas e lilases, para o Dr. Vicente, este apaixonou-se por uma jovem secretária, pois a sua alma estava de certeza mais florida e alegre. Passados uns tempo pintou um castelo amarelo com um jardim e um carreiro de flores. O Dr. Vicente casou-se. E continuando a observar os quadros mas com alguma displicência e desprovida de interpretação mais profunda, a Guilhermina deixou que o tempo pintasse ele próprio o destino do Rodrigo.
Aluno razoável e criança que só a aptidão e minúcia nas artes plásticas distinguia das outras. Nunca procurou saber porque tinha a pele mais escura que a Guilhermina, 'é do sol que a mãe apanhava na barriga', dizia-lhe ela. Nunca quis saber quem era o seu pai, 'ainda não descobri', dizia-lhe ela também em tom de brincadeira mas o Rodrigo estava satisfeito com a sua vida preenchida que não procurava saber mais do que o resultado da mistura de amarelo com encarnado e de pipocas com caramelo.
Quando fez 19 anos, e já com um ano extra no seu percurso escolar, que aproveitou para tirar um curso de pintura. O Rodrigo partiu para Glasgow, na Escócia, para estudar artes numa famosa universidade da cidade situada na 116 Ingram Street. A sua casa arrendada a uma amiga da Guilhermina que tinha lá um pequeno apartamento que herdara de uma tia-avó, ficava numa rua transversal à escola, na Osborne Street.
Durante a sua estadia, raramente veio a casa, intercalando as suas viagens com as visitas semestrais da Guilhermina. Escrevia à mãe pequenas cartas mas sempre acompanhadas de fotografias dos quadros que pintava para as suas namoradas e amigos mais chegados. E Guilhermina sabia assim quem eram os amigos e pessoas à volta do filho. Nos sete anos de curso e pós graduação, nunca encontrara uma namorada por quem verdadeiramente se apaixonasse. Gulhermina via nas últimas fotografias dos quadros que o Rodrigo lhe oferecia, elementos como janelas fechadas, torres inatingíveis ou cadeados, e previa o final das relações, o que sempre acontecia.
Já no último ano do curso encontrou a namorada com quem viria a casar. A fotografia do quadro que enviou à mãe com o seu sonho sobre esta namorada, era uma tela em branco: não consegui ver nada no seu sonho. O nome da namorada era Aisling, um típico nome irlandês que para os dicionários de nomes da Grã-bertanha, significa 'Sonho'.
Em contrapartida esta namorada oferecera ao Rodrigo, quando se conheceram, um poema riquíssimo de palavras e adjectivos, que fizeram o Rodrigo sentir-se nu, de tão minunciosos pormenores sobre si no poema. Aisling, contou-lhe que escreve quando sonha com as pessoas. Que os seus poemas são relatos quase perfeitos de tudo o que sonha, quando sonha com essas pessoas.
- E o que estou eu a fazer com esses elementos todos no teu sonho?
- Os elementos representam-te. Não está lá a tua cara nem o teu corpo físico. Mas sei que és tu.
- Como? E o que são as folhas de árvore e o sol que escreves? Porque é que eu não sou uma onda da praia ou um chapéu? - insistiu mais uma vez, procurando perceber que tipo e que profundidade de abstracção Aisling experenciava nestes sonhos.
- Porque és as folhas de árvore e o sol . Porque depois de ter estes sonhos, quando estou contigo, sinto que os sonhos que tenho aparecem sobre ti. Pareces-me um sol e as folhas que protegem uma árvore e isso conforta-me.
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