Tudo era simples e muito rotineiro na vida da Sr.ª Maria de Lourdes. Os galos reuniam-se e cantavam-lhe nunca depois das 6h da manhã nos dias de sol. No Inverno era por volta das 7h. A cafeteira estava pronta em cima do bico do fogão, era só acender. As tostas já colocadas na torradeira, só descer. Os óculos junto ao comando da televisão, na mesa de apoio do canto direito do sofá. Antes do telejornal das 13h, a senhora do lar vinha-lhe trazer uma caixa com o almoço e a tarde era passada a alimentar as galinhas e a tratar da sua horta. As peças do faqueiro estavam todas em número igual, e se perdia um garfo, o que aconteceu apenas uma vez até hoje, uma colher de sopa e uma de sobremesa, uma faca de manteiga, uma do peixe e uma carne, eram oferecidas ao lar. Na cadeira do quarto estava já pronto o vestido simples e o avental que usaria no dia seguinte. No armário os cabides tinham já os conjuntos que vestiria no Domingo para ir à missa e depois fazer a visita às tias e senhoras mais velhas da cidade. Não tinha filhos. Nem tinha gatos. Tinha um cão que lhe aparecera à porta no final do seu dia de aniversário. E como não tinha recebido nem uma visita, nem um presente, recebeu-o de bom grado como se aquele cão abandonado se tivesse apercebido de tal injustiça e se tivesse oferecido a si mesmo, para manter o equilíbrio natural da vida. Depois de muito pensar, resolveu chamar-lhe Bóbi.
Um dia os galos não cantaram. Acordou sobressaltada e reparou que o relógio já marcava 7h30 da manhã de um dia de Primavera. O café tinha azedado com o calor que fizera à noite e o pão tinha marcas de bolor. O vestido que iria vestir estava a cheirar a fritos e o avental estava roto. Acordou tarde para as suas rotinas, não tomou o pequeno-almoço e resolveu que iria de pijama almoçar restos de ontem, pois a senhora que lhe trazia o almoço do lar avisara ontem que hoje não poderia vir. E foi de pijama alimentar as galinhas. Que estavam despedaçadas na varanda. O Bóbi ainda tinha marcas de sangue no focinho e restos de penas em seu redor. Maria de Lourdes quis chorar, mas já não se lembrava de como o fazer e sentou-se a rir sentada sobre uma poça de sangue, no alpendre do galinheiro. Nesse início de tarde tudo indicava que algo estaria para acontecer, pensou para si, como se ainda nada tivesse acontecido. Pegou o Bóbi ao colo e lavaram-se os dois no tanque da roupa do quintal.
-Hoje vamos passear! Está uma fantástica quinta-feira e ficar em casa é um desperdício. – disse para o cão.
Foi para o seu quarto e vestiu o mais bonito dos vestidos de missa e o perfumou-se como se fosse para um encontro amoroso. Colocou uns antigos brincos e pulseiras de ouro da sua mãe, tirou a corda do estendal e fez dela uma prática trela para levar a passear o Bóbi. Nunca mais voltaram.

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