domingo, 28 de novembro de 2010

Houve Tempos

Houve em tempos uma aldeia

Por onde passou a doença

E nunca o comboio ou uma estrada

E nunca uma missa ou um funeral



Só a peste passou naquela aldeia

Transformada numa enorme vala

De onde vem um cheiro moribundo

De onde emana um fumo de almas finitas



Os que ficaram para o final

Viram a sua aldeia desfazer-se

Como castelos de areia pelas ondas

Em lamas infalíveis



E também eles eram castelos

Cada vez que uma onda vinha sentiam

As suas pernas desfazendo-se

Como folhas no Outono libertando-se das árvores



Até o vento já doía quando passava

E tocava nas feridas em céu aberto

Esperando que chuvas divinas caíssem

E curassem corações que batem em súplica



Mas nada, nem ninguém

Ajudou ou sobreviveu

Àquela semana que foi

A mais injusta guerra que eu assisti



O homem a lutar contra si próprio

Enquanto arranca a pele do seu peito

E deixa que a alma abandone o corpo

Antes que a morte dolorosa chegue pelas veias

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