Houve em tempos uma aldeia
Por onde passou a doença
E nunca o comboio ou uma estrada
E nunca uma missa ou um funeral
Só a peste passou naquela aldeia
Transformada numa enorme vala
De onde vem um cheiro moribundo
De onde emana um fumo de almas finitas
Os que ficaram para o final
Viram a sua aldeia desfazer-se
Como castelos de areia pelas ondas
Em lamas infalíveis
E também eles eram castelos
Cada vez que uma onda vinha sentiam
As suas pernas desfazendo-se
Como folhas no Outono libertando-se das árvores
Até o vento já doía quando passava
E tocava nas feridas em céu aberto
Esperando que chuvas divinas caíssem
E curassem corações que batem em súplica
Mas nada, nem ninguém
Ajudou ou sobreviveu
Àquela semana que foi
A mais injusta guerra que eu assisti
O homem a lutar contra si próprio
Enquanto arranca a pele do seu peito
E deixa que a alma abandone o corpo
Antes que a morte dolorosa chegue pelas veias

Sem comentários:
Enviar um comentário