sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Pai, as suas mãos que me levavam
Num passo apressado pelo passeio
As suas palavras que me contavam
Histórias e morais de coração cheio

A lebre e a tartaruga de la Fontaine
Nas noites em que não dormia
O seu conselho para não mais esquecer-me
Da sua voz que me aluia

Entre dias dias de sol e de inferno
A sua presença era força que me guiava.
Miúdo, de vista amiúde, julguei ser eterno
O pai na minha vida que em amor trilhava.

Mas o sol e a tempestade foram mais fortes
E no despero, imagino, foi forçado a optar.
E um filho, que se imagina alheio aos cortes
Foi descartado do seu lar.

Sem pedir, sem querer, sem opção,
Fui forçado a caminhar tenebrosos trilhos.
E a perceber que no seu tão largo coração
Não havia espaço para todos os filhos.

A minha consciência e entendimento
Ensinaram-me a vê-lo como homem falível, talvez fraco,
Para poder aceitar como um homem sem alento
Deixa cair os filhos para fora do seu fato.

Nenhum de nós escolheu, espero que o entenda,
Nascer ou ser da sua paternidade.
E os filhos não podem ser solução ou emenda
Na vida de um homem que se reja pela dignidade.

Rezo profundamente no mais recôndito lugar de mim
Para que Deus me ensine  a perdoar
Que um homem, pai, opte assim
Por excluir, ferir, e anuir por abandonar.

Ferido, perdido e atordoado sem dias felizes
Aprendi a sarar as feridas.
Mas nem os anos de sol apagam as cicatrizes
Que o pai gravou nas nossas vidas.



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