As luzes do carro contra a curva
A visão turva contra o chão
A mão vazia na algibeira rota
Uma gota de suor nas costas
As nuvens postas para chover
Ficar para ver a decadência
Da demência que me toma inteiramente
Para docemente me deixar cair
Onde surgir um ombro forte
Na sorte de ser tão pouco
De ar tosco no absorto dos dias
As faces frias e secas da dor
de um amor que me percorre
Na vida que me escorre entre os dedos
Vítima dos medos de quem ousa ser
Sabendo-me perder cada minuto
Por entre um vulto de poemas
E deixar-me ser apenas a sombra da vida
Na verdade escondida por entre os dentes
Os músculos dormentes da dor segurada
Numa madrugada que se constrói
Entre o âmago que dói e a alma que espera
Que a terra se abra para me receber
Morto na vida que quis ter.

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